domingo, setembro 16, 2007

Canções que você fez pra mim

Estava aqui em casa tocando violão, e coloquei um CD de João Gilberto pra rememorar a batida de ‘Lobo Bobo’. Gosto da batida de João e sua voz macia cantando a letra ingênua de Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli

“Era uma vez um Lobo Mau que resolveu jantar alguém
Estava sem vintém, mas arriscou e logo se estrepou
Chapeuzinho de maiô ouviu buzina e não parou...”


De repente, começo a trocar CDs mergulhando na riqueza que foi a Bossa Nova como estilo musical com conteúdo rico e completo, porque nela se renovaram melodia, harmonia e ritmo. A bossa-nova era também uma atitude, uma maneira mais leve e saudável de ver a vida, com mais luz, sol, e mar. Nunca foi um estilo das massas, mas sempre andou pela classe média. Seus criadores eram pessoas da classe média, com cultura de classe média, e falando para a classe média. E todo mundo morando perto da praia.

Porém, a bossa-nova teve seu tempo. Não vale mais. Hoje, só é praticada no Brasil como lembrança de uma época. Não vejo mais sentido em se compor bossa-nova. Acredito que atualmente a bossa-nova tenha mais prestígio no exterior do que no Brasil. Agora, ela não deve ser esquecida, assim como o choro e o frevo também não.
O Brasil anda muito imediatista, e não dá valor à sua história.

Deixando as lembranças de lado, pego o violão e toco Cordas de Aço. Sinto arrepios diante da singeleza da canção de Cartola, gravada por Gal, Beth Carvalho, Luiz Melodia, o próprio Cartola, além de uma dezena de outros. É bom ouvi-la. Mais tocá-la.


As canções que você fez pra mim (2)
Passei horas na Internet ouvindo violão. A batida. A mão direita nas cordas. Na Net, atualmente, é o jeito rápido de ouvir os violões mais variados, fuçar, conhecer maneiras de tocar, de soar, harmonias, levadas. E interessado em coisas bem simples, acabei caindo no Bob Dylan e outros baladeiros, pra começar.

Dylan velho eu tinha ouvido sempre de orelhada, fui ouvir agora com curiosidade e caí pra trás: aquela aparente tosqueira do violão e gaita dele tem um rigor incrível. Nada fora do lugar, uma baita força expressiva no violão de poucos acordes e aparentemente poucas variações. Primeiro de tudo, o espanto de ver o que se pode fazer com três ou quatro acordes.

Depois procurei levadas. Melhor do que Jorge Ben (frescura esse lance de Benjor!), raros. A escola brasileira é extraordinária. Macalé, um toque tão suave que se ouve os harmônicos todos de cada nota. O Gil intrincado e inventivo dos anos 70, 80, sei lá. O João Gilberto, minimalista e rigoroso feito uma sinfônica de bolso, o Dorival Caymmi, que quase é um sujeito fazendo trilhas sonoras pra canções que são filmes. E o Djavan, um violão absolutamente rítmico, um jeito brasileiro de ler a pronúncia do jazz.

Maneiras de tocar violão brasileiras. E Garoto. E Villa Lobos e Egberto e o Yamandú, e tantos e tantos outros. E não tem como não pular pra guitarra. E encontro em outro site o Lanny dos discos dos tropicalistas e também as levadas de guitarra da Jovem Guarda. Um exemplo? “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”!


Bom, estou só tocando no assunto. Aliás, chamando assuntos e nomes pra vocês fuçarem por aí. E uma sugestão tonta, nesse tempo da informação tão excessiva em que a gente de repente nem sabe mais o que é que importa ser ouvido: dêem uma nova ouvida nessas velhas coisas banais feitas ao som do instrumento mais comum do mundo. E fiquem imaginando como gentes simples fizeram canções as mais simples com uma força (emocional e estrutural: estética) danada. Que resiste ao tempo, às velocidades, às modas, aos comércios.
Fucem, e me contem.

8 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia, Hiroshi

Um comentário - ou sugestão pra você - que tal pegar essa turma boa da música aí e montar um show contando a história recente "deste país" (dos anos 50 para cá) através da música?

Quando você fala da bossa nova, imediatamente penso que aquela ingenuidade e aquele egocentrismo ...

"...um cantinho, um violão, esse amor, uma canção, pra fazer feliz a quem se ama..."

só eram possíveis num Brasil batendo palmas para a indústria automobilística e que tinha certeza que o gigante adormecido acordaria. Então seríamos, todos, individual e coletivamente, muito felizes. Bastava cuidar apenas da dor do amor.

A angustia de Torquato Neto, a marcação irrepreensível do Chico de todas esaas décadas, já compõem o cenário da nossa geração.

Os meninos de Brasília - Renato Russo, Cássia Eller - chegam aos anos 90 com a esperança destroçada, a angústia à flor da pele.


Um abraço pra começar a semana.

morenocris disse...

Hiro, mas a bossa está de volta!

Beijos.

Hiroshi Bogéa disse...

Idéia é maravilhosa. Vou sentir a temperatura da turma e imaginar aonde arranjar patrocinios. O projeto requer um pouco de larjã. E que tal se você fosse a roteirista e dirigise o show?
Fica a sugestão também
Uma ótima semana pra você tb, Bia.

Hiroshi Bogéa disse...

Oi, Cris, sumida!
Voltando..com todo o charme de antes? Não acredito.
Beijos

morenocris disse...

Caramba...você sabe que o Bob Dylan está no blog...?

Estamos em sintonia...já que não passei por aqui ontem!

Fui entrar no Juca de madrugada...

Beijinhos.

Anônimo disse...

Caríssimo,

não sou reteirista, mas, há anos penso nesta história, que sei, não é nada original.

Mas tenho muita vontade de fazer uma selação "histórica", do jeito que vivi e vejo a música retratando nossa felicidade, nossa tristeza, nossa pátria-mãe-tão-pouco-gentil.

No meu ritmo,lento, devagar-quase-parando, vou montar por aqui esse roteiro. E a gente vai trocando figurinhas pelo e-mail. E a gente pode tentar cavar esse patrocínio juntos, quando a coisa tiver corpo.

Topas?

Eu topo.

ABração

Hiroshi Bogéa disse...

Fechado, Bia. Prego batido, ponta virada. Podemos desenvolver a idéia contando logicamente com outros parceiros. Visualize o que já vens pensando para trocarnos figurinhas on line. Pode surgir algo bem interessante.
Beijos

Hiroshi Bogéa disse...

Cris, ja vi o Dylan em seu blog, sim. Gosto dele, sempre gostei.
Bjus