O clima de Natal, inevitavelmente, bate nossas portas, numa imitação de gestos, palavras, consumismo, negro estágio da mediocridade repetitiva a embalar de vulgaridade o comum das pessoas.
Para que a gente não se angustie mais ainda com tanta falta de criatividade -, localizei, no fundo do baú, texto maravilhoso do poeta, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria, autor de “A Noite do Meu Bem”, música consagrada na voz de Dolores Duran, num tempo em que os Natais eram diferentes e nos faziam Bem.
Como sugestão, leiam “Canção de Fim de Ano” ouvindo algum sonzinho legal, regado a vinho de sua preferência.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Canção de Fim de Ano
Que dia maravilhoso haverá, aquele em que for possível telefonar para os melhores amigos e dizer-lhes que houve um ligeiro engano, que não teria sido preciso escrever coisa alguma? E que, dali em diante, nada mais se escreverá, a não ser os nomes e os números necessários das pessoas e das coisas.
Que boa impressão a de ser-se uma parte do coral, um grito em meio às vozes que clamam o gol, um gemido noturno, entre os muitos e repetidos gemidos, na imensa e fria sala do hospital de indigentes! E que absurda e amiga paz a de saber-se que a lua e a flor, o rio e a queixa, nada foi mais lua ou flor, mais rio ou mais queixa, por causa do que se disse. A própria mulher foi sempre bela ou fêmea, antes e a salvo da minha poesia e das minhas mãos!
Vivi entre o que viveu. Fui multidão e povo, um lugar ocupado, uma rescendência de suor, uma voz que pediu licença, um olhar que mendigou prazeres e uma parte milesimal dos pés que povoaram. Das minhas mãos, prefiro não contar, a não ser na custosa confissão de que foram mãos vadias. De bem, fizeram a bênção e o carinho... mas o carinho é vadio e, em toda vez que se aparta de Deus, é proibido. Prevalece, portanto, o existente da multidão, o corista, aquele que não foi o solista de beleza alguma e que, por isso, se sente irresponsabilizado dos erros de maneira especial e destacada!
Sou o rosto fora de foco de uma fotografia em que dezenas de pessoas aparecem em segundo plano. Posso ter ou não a barba crescida; posso trazer ou não uma flor no peito; posso chorar até, e ninguém botará reparo. A fotografia passará de mão em mão e todos os que comigo estiverem desfocados só serão odiados quando não houver mais nada a odiar em primeiro plano.
Só assim é — se o homem real e constante — o que sente o gosto e o cheiro da vida. A maioria se evade de sua condição real, para fazer ou imitar o êxito. Entretanto, só o êxito casual é verdadeiro. Exemplo de êxito casual: a beleza. Exemplo de beleza: a mulher bela. Uma mulher sentou-se à minha frente. Tinha luz própria... E tanta, que um fanal de evidente claridade iluminou minhas mãos, quando em gestos inúteis (as mãos) procuravam supor os seus múltiplos encantos. Mas não me quero perder além do homem real e constante, portanto, desenvolto.
Só farei, sem pudor e remorso, aquilo que fizer com desenvoltura. Principalmente, a poesia e o amor. O amor ou é desacanhado, destro, irrefletido... ou é suor. A poesia também. Por isso volta-se a multidão, vivem-se as imunidades corais e espera-se a vinda casual da poesia e do amor.
Sou o homem real, que sua, que mente, que disfarça, que teme, que inveja e cobiça. Tive e tenho os meus momentos de suicida. Não gosto que me conheçam aquém e além de um homem constantemente exposto ao erro e ao crime. É dever do ser humano pressentir em seu semelhante um sem-número de intimidades inconfessáveis. O grande e verdadeiro amor ao próximo é aquele que ama os erros mostrados e pressupostos.
Além da verdade, só existe a multidão, que exime o homem das proclamações e o ampara das conseqüências de sua coragem. Depois de cumprida a Verdade, ter-se-á conquistado o silêncio. "O silêncio alcançado à custa de sempre dizer a mesma coisa" (João Cabral de Melo Neto).
Só creio em dois estados de lucidez: o dos bêbados e dos poetas. Ambos são negados. Mas essa negação ainda não é a definitiva. Lucidez não é, por exemplo, comprar-se uma vitrola por cem dólares e se vendê-la por vinte contos. Isto seria melhor chamado de "paciência"... ou "organização"... ou ainda "paciência organizada". Lucidez não é ainda ir-se hoje para Brasília e voltar-se, daqui a três anos, com cem milhões. A isto eu chamaria de "disciplina para fazer o fácil". A grande lucidez dos poetas estaria, por exemplo, neste verso de Fernando Pessoa: "Em tudo quanto olhei, fiquei em parte". A lucidez dos bêbados é difícil de defender, porque existem mil bêbados diferentes na humanidade. Mil que partem de dois: o bom e o mau. Ambos são lúcidos e, se um desagrada, é porque sua natureza repele o estado angelical e luzente da bebedice.
O conhecimento incessante da verdade faz com que o homem caminhe para o anjo. Chegarão primeiro os que mais depressa conheceram ao seu semelhante, tanto quanto a si mesmo. Nunca foi impossível o exato conhecimento próprio. É necessária, porém, a coragem bastante, para que cada qual se veja e se pegue, se espie e se apalpe, em cada um dos seus mais íntimos espaços físicos e morais. Que as constantes feiúras a encontrar não nos retraia os olhos (no caso, o sentir) e as mãos. Depois, será mais fácil conhecer-se o próximo. E depois, então, mesmo que se minta, só se saberá da utilidade e do consolo da verdade. Faltará ânimo para o fingimento e a fuga, quando acreditarmos em que ninguém engana ninguém e em que somos capazes de conhecer o próximo, desde o instante inicial do primeiro conhecimento.
A sintomatologia do mal é evidente e constante. O homem mau ri errado. Por isso, deve-se viver em multidão. Falar e rir em coro, andar e parar em batalhões. Viver entre os que, simplesmente, estiverem vivendo. A vida coral nos alivia da obrigação do êxito, do êxito que é casual (e verdadeiro) ou é fabricado e cínico. Desconfiai dos feitos que são repetidamente comemorados com jantares e missas de ação de graças!
É esta uma simples canção de fim de ano. Escrevia, confessando-me e comprometendo-me em cada uma das minhas pequenas descobertas. Se não atingi, rondei mais das vezes a insolente verdade dos homens e das coisas. Em vez disso, escreveria uma crônica de Natal... Mas, em tudo o que eu dissesse do Nascimento de Cristo e fraternidade humana, correria o erro constante de repetir: "Natal, Natal, bimbalham os sinos...".(Antônio Maria)
terça-feira, dezembro 19, 2006
Faxina
Quando assumir em 1º de janeiro a presidência da Câmara de Marabá, vereador Miguelito Gomes (PP) tomará medidas duras para reduzir despesas. De cara, demitirá 25 servidores.
Somente na portaria existem lotados dezenove. Todos juntos em um mesmo horário não cabem na área de recepção do prédio do legislativo. Confusão à vista com o atual presidente Maurino Magalhães e seu futuro vice, vereador Leodato Marques, padrinhos dos contratados.
Somente na portaria existem lotados dezenove. Todos juntos em um mesmo horário não cabem na área de recepção do prédio do legislativo. Confusão à vista com o atual presidente Maurino Magalhães e seu futuro vice, vereador Leodato Marques, padrinhos dos contratados.
Mão na massa
Futuro secretário de Planejamento, Orçamento e Finanças (Sepof), Carlos Guedes desembarcou em Marabá para ações rápidas como coordenador da equipe de transição e ainda pontuando como delegado do Ministério de Desenvolvimento e Reforma Agrária. Esteve no Incra e manteve contatos com diversos setores da sociedade. Antes de retornar no final da tarde a Belém, Guedes concede entrevista ao blog.
Eu sou, e daí?!
A providencial publicação da lista completa dos aspones de Jatene, na edição desta terça do Diário do Pará, mostra porque o ex-prefeito de Itupiranga, Benjamin Tasca (PTB), recusou-se apoiar candidatos oposicionistas que pediram votos no município – mesmo sendo ele acusado em praça pública pelo então secretário de Agricultura do Estado, Wandenkolk Gonçalves (PSDB), de prática de corrupção à frente da administração municipal. Com salário de R$ 1.785,00, Benjamin mamava nas tetas da “Mami-Joana”.
Detalhe: o ex-prefeito apoiou para deputado federal seu próprio acusador, Wandenkolk.
Detalhe: o ex-prefeito apoiou para deputado federal seu próprio acusador, Wandenkolk.
domingo, dezembro 17, 2006
Bombando o homem
No Tutti Qui deste domingo de O Liberal continua a campanha pela valorizaçao do "passe" de Paulo Chaves. Com todas as letras, diz-se que o arquiteto "foi sondado por um amigo de Luiz Paulo Conde - que foi prefeito do Rio de Janeiro e deve ser o secretário de Cultura do governo - se toparia ocupar um cargo naquela pasta".
Que diabos empurram tanta gente a tentar fazer o distinto público acreditar que o PC é essa sumidade mesmo?
Que diabos empurram tanta gente a tentar fazer o distinto público acreditar que o PC é essa sumidade mesmo?
Burguês emperiquitado
Olhando aqui do interior pra capital, a gestão de Paulo Chaves na secretaria de Cultura foi o maior retrocesso que o setor conheceu em toda a história. Primeiro, em quase uma década à frente da pasta, o PC dos paraenses jamais visitou uma cidade do Sul do Estado, e se o fez percorreu suas ruas na calada das madrugadas. Em todo período, não se tem conhecimento de uma viagem sequer desse moço a uma cidade interiorana com objetivo de ouvir as demandas dos setores culturais, produtores, gestores e artistas. Na propaganda tucana, todo dia se falava na municipalização de ações mas a interiorização de políticas públicas na área de cultura, estímulo a parcerias ou qualquer projeto voltado ao desenvolvimento – tudo isso não passou de miragem.
Canto de Ossanha
Perguntar ao Paulo Chaves se ele sabe onde se pode ver e ouvir o canto-choroso das quebradeiras de coco do Araguaia, é correr risco dele imaginar tratar-se do canto das incelenças em noites de velórios nordestinos. Ir mais fundo, aventurando-se em pedir considerações sobre o “Beirarubu” realizado anualmente em Conceição, da mesma forma se ganha o desconhecimento como resposta natural dele, porque o PC do Pará não conhece a cultura do Pará, nunca sentou no fundo de uma canoa atravessando igarapés para ver como brincam enfeitados os moradores da zona rural do município de Santa Maria das Barreiras, embalados por ritmos de matracas trazidas do Maranhão.
O toque do Poeta
Os ritmos “culturais” que embalaram a criatividade de Paulo Chaves são feitos de cimento, ferro e vidros -, maiores obras da gestão tucana emoldurados na Estação das Docas, Mangal, Feliz Luzitânia e Centro de Convenção. Não discuto os benefícios desses empreendimentos (que são muitos) -, apenas citados como símbolos de uma era onde confundiram, propositalmente, cultura popular com turismo de ocasião.
Quando Paes Loureiro ocupou a Secult, o Sul do Pará o recebia com freqüência. O olhar do poeta se sentia bem no meio de nossa gente, e cantava e ria com tudo o que se produz no seio das manifestações populares. Travado pela burocracia de Almir Gabriel, nada pode fazer de relevante, mas conseguiu ainda imprimir alguns eventos e oferecer workshops na área musical para muita gente de diversos municípios.
Depois fizeram inversão de valores: trocaram o poeta pelo arquiteto, e as artes choraram, perderam o vinco e a cor. Mas não a vida.
Quando Paes Loureiro ocupou a Secult, o Sul do Pará o recebia com freqüência. O olhar do poeta se sentia bem no meio de nossa gente, e cantava e ria com tudo o que se produz no seio das manifestações populares. Travado pela burocracia de Almir Gabriel, nada pode fazer de relevante, mas conseguiu ainda imprimir alguns eventos e oferecer workshops na área musical para muita gente de diversos municípios.
Depois fizeram inversão de valores: trocaram o poeta pelo arquiteto, e as artes choraram, perderam o vinco e a cor. Mas não a vida.
Bate tambor, Ana
Tomara que o futuro secretário Edílson Moura, em suas primeiras iniciativas, seja percorrer o Estado, sair da capital para se aproximar dos verdadeiros fazedores da arte e movimentos criativos, recolhendo informações para as linhas básicas de uma política cultural do Estado. Necessário se faz interiorizar-se, criar planejamentos e programas voltados para a descentralização cultural e a capacitação de recursos humanos, gerar orçamentos, empregar o dinheiro para que ele seja bem gasto naquilo que é realmente relevante para as artes e as culturas infestadas no território de cada cidade.
Dia desses, o Juvêncio Arruda, em gostoso post, falou da alegria dele em viver a Festa do Interior , correr trecho e sentir o hálito da criação da gente simples, estimulando, ao final, Ana Júlia a bater o tambor da criação, como governadora, entrando também firme na dança de transformação de nossas fortes e arraigadas manifestações culturais.
Dia desses, o Juvêncio Arruda, em gostoso post, falou da alegria dele em viver a Festa do Interior , correr trecho e sentir o hálito da criação da gente simples, estimulando, ao final, Ana Júlia a bater o tambor da criação, como governadora, entrando também firme na dança de transformação de nossas fortes e arraigadas manifestações culturais.
Resistência cultural
Está na hora do poder central de Belém contribuir para acabar com um fenômeno que batizo de "resistência cultural" e que se formou na última década pela ausência de políticas públicas destinadas às artes e as suas manifestações diversas, geralmente vivenciadas em grande parte dos trinta e oito municípios da região . E esta "resistência cultural" não é um processo simples que se dá no confronto entre culturas imutáveis no tempo. É a visão que muitos dirigentes estaduais tentam perpetuar de que costumes e tradições trazidas de outros estados deformaram o paraensismo, quando, na verdade, fez foi fortalecê-lo, com novas cores e vozes. Um verdadeiro caldeirão de boas novas a consolidar nossa própria identidade porque a vida social não consiste em batalhas campais entre culturas, mas sim em enfrentamentos entre grupos, categorias e indivíduos, para quem a cultura orienta a ação política e é ao mesmo tempo uma arma usada para empreendê-la.
Nessas pequenas e grandes batalhas do dia a dia, a cultura vive através daqueles que a usam, e ao serem assim utilizadas, ela os transforma e se transforma.
É atrás desse amontoado de sítios criativos que o novo governo deve ir, sem se preocupar em medir o tamanho de seu custo.
Aqui estaremos solícitos, avidamente batendo tambores, viu Juvêncio! E dando boas vindas.
Nessas pequenas e grandes batalhas do dia a dia, a cultura vive através daqueles que a usam, e ao serem assim utilizadas, ela os transforma e se transforma.
É atrás desse amontoado de sítios criativos que o novo governo deve ir, sem se preocupar em medir o tamanho de seu custo.
Aqui estaremos solícitos, avidamente batendo tambores, viu Juvêncio! E dando boas vindas.
Bom de mira
Dia 5 de dezembro, a 1:33 PM, o post "Ver para crer: dizia: "Tem gente do PT dizendo que as listas dos prováveis secretários de Ana Júlia divulgadas em jornais e blogs ainda podem aparecer com nomes substituindo os que já foram revelados. Uma fonte faz a seguinte previsão: a DS deverá ter no mínimo doze secretarias. A ver."
Até agora a Democracia Socialista emplacou onze secretários.
Até agora a Democracia Socialista emplacou onze secretários.
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