sexta-feira, agosto 29, 2008

Sem pegadas

Sonolento, ao ritmo da maciez das águas, o par de sandálias descia o rio, sem deixar rastros.

Apenas a sombra refletida entre a superfície e o banco de areia.

A luz do Sol a tudo focava.


Pagando pra ver

Por mais tentemos desvisualizar traços de criminalização nas ações do MST , fica difícil suportar a pressão em contrário, exercida, principalmente, pelos exemplos de banditismo de setores do movimento social.

O que fizeram agora, em Palmares II, com a tomada de 50 trabalhadores que se dirigiam às suas residências depois de mais um dia de labuta, agride a boa fé e paciência dos mais franciscanos dos jornalistas.

É inadmissível, sob qualquer aspecto, aceitar o rapto de pessoas desprotegidas. Torná-las reféns de atitudes criminosas.

Ou o Estado dá um basta de vez nessa anarquia, ou o campo se transformará, logo, logo, em zona de batalha sangrenta.

Você já foi à Bahia?

Depois da morte de Dorival Caymmi, Caetano escreveu preciosidades sobre o compositor baiano.

O blog solta aí pequena amostra. Quem quiser ler o texto integral, basta acessar o Obra em Progresso, blog do Caetano.


Caymmi completou sua vida luminosa. Saí do ensaio das músicas de Jobim com Roberto Carlos e fui à Câmara Municipal ver a cara dele pela última vez. Beijei Nana. Rimos. Não pode haver um jingle turístico mais perfeito do que “Você já foi à Bahia?”. E nenhum seria assim puro de toda ansiedade comercial. É que não é para “turistas”. Não tem desprezo nem raiva dos turistas, mas é para quem quer que seja uma “nêga” que mereça ser chamada assim (claro que isso pode ser mulher ou homem: estou falando de algo essencial numa alma humana).
Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de “Você já foi à Bahia?” tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. “Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.” vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de “Quem vai ao Bonfim, minha nêga”, onde a vírgula entre “Bonfim” e “minha nêga” cai certinho, e esse “minha nêga” vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala.
E a gradação virgulada de “muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá”, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E - depois do refrão “então vá” repetir-se ritmicamente seguindo a série “lá tem caruru”, “vatapá”, “mungunzá” - abre-se aquele largo das “sacadas dos sobrados da velha São Salvador…” que eu repeti quase todo (menos o último verso) em “Terra”.
Há aí bandeira de que se trata de obra de extração popular, quase iletrada, nas inadeqüações prosódicas de “velha” (que, por força da melodia torna-se - ou tornar-se-ia - “velhá”) e de “tempo” (que vira “tempu” - ou, se você for gaúcho ou paranaense, “tempô”)? Há. É feio? Não. Fica pior quando se tenta “corrigir”? Nem assim. Não fica menos rica essa canção por alguém mudar um pouco a melodia para forçar uma adeqüação prosódica. Nem por alguém entregar-se à deformação popular dos paroxítonos em oxítonos.
“Você já foi à Bahia?” é uma jóia perfeita. E, além de ser uma banalidade, é um retrato passadista da cidade. Mas será? Na verdade é um retrato atemporal, um retrato essencial, o retrato de algo que dura mais do que as mudanças que surgem e morrem em pouco tempo.
Esse mundo (de aparência passadista mas referido a durações mais profundas - e de extrema naturalidade de dicção) reencontra-se nos sambas todos que Caymmi fez e cantou: “Lá vem a baiana”, “Requebre que eu dou um doce”, “A vizinha do lado”, “Vatapá”, “Vestido de bolero”, “Rosa morena”, tantos.
Em todos - e muito claramente na parte repetitiva de “Você já foi à Bahia?” - a exposião consciente do parentesco entre o Brasil e Cuba, a Bahia e Cuba.

De Sampa a Marabá

O blog recebe artigo de Luiz Ricardo Leitão, publicado a seguir:


Em um país cujas dondocas fazem fila para comprar relógios de R$ 27 mil na joalheria Cartier, é de fato um crime gastar as verbas públicas com a educação dos jecas tatus que até hoje não se dispuseram a venerar o agronegócio e outras divindades da era (pós-)moderna (Luiz Ricardo Leitão)

Escrevo de Marabá, ao sul do Pará, terra de gente valorosa, mas tristemente famosa pela truculência de seus velhos e novos “coronéis” e pela impunidade que campeia nas vilas e latifúndios da província. A cidade se divide em duas: a antiga, às margens do rio Tocantins, com mais charme e história; e a mais nova, em área mais afastada, uma invenção da ditadura, cujas vias públicas não são chamadas de ruas, nem avenidas, mas sim “folhas”, porque os militares a conceberam à feição de uma castanheira (que, por certo, a exemplo de outros projetos urbanísticos do Novo Mundo, hoje já está completamente “bichada”, corroída pela resistência antropofágica dos excluídos).
Aqui perto, a pouco mais de 100 km, está a Serra de Carajás, onde se exploram as maiores jazidas de ferro do planeta. A região é dominada pelas grandes mineradoras, dentre elas a todo-poderosa Vale do Rio Doce, que exporta nosso minério a preço de banana para China, Japão & cia. para que depois importemos trilhos ferroviários por preços dez vezes mais caros. Os trens de carga circulam dia e noite; já as composições de passageiros fazem apenas duas viagens semanais entre Carajás e São Luís – afinal de contas, pela lógica do capital, as commodities valem muito mais do que os peões que transitam entre o Pará e o Maranhão.
Da janela do hotel, ouço o apito da máquina e me arrisco a contar os vagões que se perdem de vista na linha do horizonte, mas desisto quando vejo que, ao final dos primeiros 180, há mais duas locomotivas a puxar outros tantos abarrotados de ferro. A explicação é simples e inquietante: a Vale dobrou os comboios e também pretende duplicar a via férrea a fim de acelerar a exploração das jazidas, cujas reservas, estima-se, teriam uma vida útil de 500 anos – e agora deverão exaurir-se em “apenas” 300 anos.
O movimento social, obviamente, não deseja subscrever mais três séculos de servidão (neo)colonial para Bruzundangas. Por isso, prevêem-se novos conflitos com a população local, pois até a imensa Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra está na mira da empresa. Curiosamente, embora um promotor gaúcho tenha escrito perfidamente que os sem-terra estariam a organizar uma “guerrilha” nos brasis, as únicas armas que encontrei até agora foram os livros, cadernos e projetor eletrônico que os educandos do Projeto Pronera /MST/UFPA manuseiam no campus universitário.
A burguesia raivosa que anseia por extinguir os cursos superiores oferecidos por convênio com as instituições públicas aos filhos dos lavradores e sequer reconhece o diploma dos médicos que se formaram em Cuba deveria visitar os cursos de Letras e Pedagogia que o projeto patrocina de norte a sul do país. Eles preparam, com enorme esforço e seriedade, os educadores das escolas básicas dos assentamentos rurais, cumprindo uma tarefa da qual nossa excludente sociedade jamais se ocupou. Não há instruções militares, nem “incitação” à violência: entre récitas de Vinicius de Morais e Patativa do Assaré, ou atentas leituras de Lima Barreto e Mário de Andrade, todos se ocupam de (re)ler e (re)interpretar as múltiplas facetas de nossa cultura e de nossa história. Suas armas, enfim, são apenas uma: o conhecimento capaz de desvelar o real para transformá-lo.
E isso tudo sai muito mais barato do que os US$ 40 milhões que Roberto Irineu Marinho (O Globo) e Abílio Diniz (Pão de Açúcar) pagaram pelo avião francês Falcon 7X, ou ainda os US$ 2,9 milhões que o publicitário Nizan Guanaes gastou com o jato Phenon, da Embraer. Contudo, em um país cujas dondocas fazem fila para comprar relógios de R$ 27 mil na joalheria Cartier, é de fato um crime gastar as verbas públicas com a educação dos jecas tatus que até hoje não se dispuseram a venerar o agronegócio e outras divindades da era (pós-)moderna. Afinal de contas, de Sampa a Marabá, quem se interessa pelos Fabianos e Severinos que o latifúndio continua a engendrar?


Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular)

quinta-feira, agosto 28, 2008

Quentinha. E séria!

Daqui a pouco, um dos mais sérios institutos de pesquisa do Estado fecha o processamento de pesquisa de intenção de votos realizada no período de 24 a 26 de agosto, em Marabá.

803 pessoas foram ouvidas, nas áreas urbana e rural.

C o n t o r c i o n i s m o




Céu ficando azul, em contraste com o contorcionismo da natureza morta.

Poses possíveis de serem construídas pela maldade da mão humana.




Desafiando a elasticidade do espaço azulzinho, a árvore dá seus últimos suspiros.

Tragando Montesquieu

Em homenagem à sensibilidade e ao talento de Juvêncio de Arruda – e para deleite de nossos leitores -, o blog reproduz, integralmente, o post Dedicado, publicado hoje no Quinta Emenda.


Para os amigos e colegas que estão envolvidos em campanhas, enfrentando os sonhos, a prepotência, a bipolaridade, a incerteza e a nudez de tantos que cruzam-lhes os caminhos nesses momentos, dedico uma reflexão de Montesquieu:

"É uma felicidade para os homens encontrarem-se numa situação em que, ao mesmo tempo em que suas paixões inspiram-lhes a idéia de serem maus, eles têm interesse em não sê-lo"

A reflexão chega em excelente hora, Juvêncio!

Bola fora

Há indícios de que Maurino Magalhães (PR), candidato a prefeito de Marabá, tenha sido alertado por alguma pesquisa de que a presença de Sebastião Miranda (PTB), nos programas de Rádio e TV, estaria mudando, drasticamente contra o favoritismo dele, o humor do eleitorado marabaense.

Não pode ser outra razão da inusitada decisão do candidato do PR pedir a proibição, à Justiça Eleitoral, da participação do prefeito no horário do TRE, pedindo votos para João Salame (PPS), candidato do prefeito municipal.

Destempero

Não se fala em outra coisa em Marabá.

O empresário Demétrius Ribeiro, apoiador financeiro da campanha de Asdrúbal Bentes (PMDB), e esposo da candidata a vice na chapa do deputado federal, desnudou todos os princípios do bom senso e da convivência urbana ao fazer ataques duros, de cima de um palanque, na Folha 33, contra o prefeito Sebastião Miranda (PTB).

Fora de controle, o presidente municipal do PSDB, disse que “Tião é um ladrão que deveria estar na cadeia”.

A pequena platéia presente ao comício, reagiu, silenciosamente, aos rompantes do empresário, deixando, aos poucos, as proximidades do comício.

Dizem que Asdrúbal não sabia aonde colocar a cara. Aliás, o deputado federal é averso a qualquer tipo de ataque aos adversários. Isso faz parte da formaçao dele.

A versão do titular

Esclarecedora, sob todos os ângulos, a entrevista que o pecuarista Bené Mutran concedeu a Mauro Bonna, segunda-feira, na RBA O industrial marabaense não refugou nenhuma resposta às perguntas do entrevistador, abordando, inclusive, as fofocas em torno da participação do filho de Lula nos negócios do Opportunity, no Sul do Pará.

Conforme o blogger tem garantido nos últimos meses, os boatos envolvendo Lulinha na compra de terras na região, como todo boato, são maldades exclusivas inventadas por fazendeiros que não gostam do Presidente da República.

Genialidade de Morbach

Excelente oportunidade para quem quiser adquirir obras do talentoso artista plástico marabaense, Pedro Morbach: de 2 de setembro a 2 de outubro, na Pinacoteca Municipal, haverá exposição individual do artista.

Pedro é filho de Augusto Morbach, o maior talento do nanquim paraense de todos os tempos.

Alguma dúvida sobre isso?

Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si...

Partituras em compasso de esperas.

Enquanto a energia passa, a música vaga em passaradas.

Homenagem à memória de todas as músicas de todos os pássaros.

Um pouco de Jobim e Bentevis plumados. Som na imensidão sideral.

segunda-feira, agosto 25, 2008

País sem memória



Esta placa com texto quase ininteligível marca a inauguração da maior obra de infra-estrutura da rodovia Belém/Brasília, a ponte sobre o rio Tocantins, à altura do município de Estreito, na fronteira do Maranhão com o Tocantins. A obra foi edificada na parte mais estreita do rio, daí o nome da cidade.

Juscelino Kubitschek, presidente da República, esteve no local descerrando a placa que leva seu nome, mas que, infelizmente, por descuido de governadores, prefeitos e vereadores, encontra-se totalmente abandonado. Os gabirus não se preocupam nem em mandar capinar o matagal que cobre o ponto simbólico.

A ponte rodoviaria sobre o Tocantins ganhou outra paralela, a da Estrada de Ferro Norte-Sul.

Caindo a ficha

Somente por volta de meio-dia de sábado último, a coordenação da campanha de Darci Lermen (PT) deu conta de que não estava pegando bem, até àquele momento, a circulação de dezenas de carros-volantes pedindo votos para o recandidato a prefeito. É que na madrugada daquele dia, havia falecido Milton Alves Martins, Milton ‘da Coca’, ex-vice-prefeito e por duas vezes presidente da Câmara Municipal, vítima de ataque cardíaco.

Enquanto os carros de propaganda da adversária do prefeito, a deputada federal Bel Mesquita (PMDB), amanheceram sábado comunicando a morte do político e convidando a população para o velório na Câmara Municipal, habilmente oficializava, também, a suspensão da agenda, naquele dia, da candidata.

Milton foi vice-prefeito de Bel Mesquita, e, atualmente, seu partido, o PP, integra a coligação que apóia Darci.

As ações distintas repercutiram na cidade.

Lá vem a onda, de novo!

Reunião marcada para Marabá do mais novo grupo social denominado 'Comitê Dorothy Stang', definirá a escolha dos personagens do sudeste do Pará que integrarão a coordenação do “Justiça nos Trilhos”, movimento destinado a colocar a Vale, de novo, a Vale na parede, com a interdição pelo período de dez dias da Estrada de Ferro Carajás.

Na primeira reunião do comitê, que tem apoio integral da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil -, ficou acertado que a mineradora deve ser denunciada internacionalmente por praticar o capitalismo selvagem em suas atividades econômicas, no Pará e Maranhão, sem olhar para os estragos sociais deixados no rastro dos grandes projetos.

Em Marabá, Parauapebas, Açailândia e mais duas cidades do Maranhão, ainda por definir, serão instalados núcleos de coordenação do 'Comitê Dorothy Stang', para arregimentação de militância e adoção de estratégias.

Passando as eleições, a ferrovia será ocupada, provavelmente, em três pontos, simultaneamente.

Diário na Net

O novo site do Diário do Pará ficou legal.

Mais fácil a acessibilidade, leitura e bem mais leve.

Muito bom.

Me add aki, vai!

A escrita à base do miguxês dos adolescentes na Internet cresce assustadoramente. A contribuição danosa que eles estão dando à Língua Pátria - a forma de escrever com erros propositais -, é preocupante.

Sem querer ser radical demais com a questão, e nem idealizar bater de frente com a galerinha livre (quem somos nós, para tanto?!), mas é preciso que as famílias discutam sobre isso dentro de casa.

1 conversinha de vez em kuando n faz mal, pow!

Entre jatobás e peixes

A lenda conta que os Karajás viviam no Rio Araguaia, em forma do peixe Aruanã. Certa feita, percorrendo águas muito frias do rio, alguns Aruanãs resolveram procurar um lugar mais quente pra viver. Na busca desse lugar, descobriram um buraco por entre as raízes de um Jatobá e ao passar por lá se transformaram em Karajás.

E se encantaram com a beleza das praias do Araguaia, com o aroma das flores e o sabor doce do mel.

Essa espécie de jatobá pontua um projeto de assentamento à beira do Araguaia, no município de Piçarra.

Pachecadas de Tarso

A ultima do ministro Tarso Genro:

- A ministra Dilma Rousseff é um nome excelente para concorrer à Presidência da República, mas não é o único.

Como se lê, o lança-chamas oficial do petismo ataca em todas as frentes. Desestabiliza o governo pedindo a revisão da Lei de Anistia, faz guerrilha no seio da administração para queimar colegas de ministério e, ora vejam, agora quer encarar a preferida de Lula à sucessão presidencial.

Na mesma entrevista, ao se ver diante das últimas declarações do presidente Lula, que se referiu a Dilma como sua candidata, Tarso disse que ainda está "esperando orientação do presidente", e que "nem tudo que é publicado na imprensa é verdade".

O gaucho, decididamente, troca as mãos pelos pés.