quinta-feira, junho 12, 2008

Pisando nos astros

O Tocantins vazando em ritmo acelerado crias várias formas geográficas, confundindo água e areia. Até onde a vista alcança, praia e rio formam um conjunto multicolorido de vidas naturais a inspirar banhistas adoradores do Sol.
Domingo, do alto, a Praia do Tucunaré, em tamanho ainda reduzido, tinha a mão de Deus a moldar seu dorso.

Agruras da base aliada

Está se tornando consenso na base aliada de Sebastião Miranda (PTB) de que ele fez pouco caso pela sua sucessão, medindo o movimento dos ventos ao sabor da popularidade do governo sem fazer a conta de que em política uma grande aliança pesa muito na hora da onça beber votos.

As principais cabeças interessadas no processo com assento às conversas informais de Miranda (entenda-se pré-candidatos), confessam preocupação com as cores do horizonte, listando alguns questionamentos.

Primeiro, perguntam se Tião Miranda estaria mesmo interessado em dedicar-se de carne e osso à campanha eleitoral como principal agente, lutando para eleger seu sucessor. Há controvérsias.

Segundo, indagam por que o prefeito não caracterizou seu candidato a tempo suficiente de torná-lo familiar ao crivo da população, disponibilizando-o ao favoritismo das pesquisas com pelo menos 15 percentuais, de preferência pública.

Dos nomes conhecidos supostamente integrantes da base aliada do prefeito (Asdrúbal Bentes, Ítalo Ipojucan, João Salame e Maurino Magalhães), dois deles, Asdrúbal e Maurino – exatamente os que aparecem bem à frente das pesquisas, empatados tecnicamente em torno de 25% -, não são do coração de Miranda.

Asdrúbal Bentes, apesar de demonstrar fidelidade ao administrador, foi co-autor da ação eleitoral que cassou o mandato do prefeito pelo período de cinco meses, criando profundas feridas até agora não cicatrizadas, apesar das aparências e gestos de demonstração em contrário.

Maurino Magalhães, enquanto permaneceu prefeito no período da cassação de Sebastião Miranda, tomou decisões administrativas contrárias a orientação do titular, além de ter dado declarações compreendidas pelo staff do cassado como de implantação de novo status quo político.

O que mais irritou Sebastião Miranda foi ter retornado ao cargo para administrar, por um bom tempo, dívidas herdadas do curto período de Maurino, que ao assumir a interinidade encontrou nas contas bancárias da prefeitura saldo superior a R$ 7 milhões.

Os outros pré-candidatos, deputado João Salame (PPS) e o atual vice prefeito Ítalo Ipojucan, não superam a casa de dois dígitos, em todas as pesquisas realizadas, apesar de ambos terem baixa rejeição.

Nos últimos dias, quando intensificaram rumores de que o prefeito de Marabá teria optado pela escolha do nome do deputado estadual do PPS, nos bastidores, o descontentamento dos demais personagens da base aliada foi geral. Sem admitirem publicamente, Ítalo e Asdrúbal passaram a conversar com outras pré-candidaturas numa sinalização de que podem rachar o grupo que dá sustentação ao prefeito marabaense caso o ungido seja João Salame.

Ao dar para si mesmo o prazo de 15 de junho como data limite para aguardar a definição do prefeito, o deputado Asdrúbal Bentes sinaliza a preocupação de não querer ficar isolado no processo. Nas ultimas horas, sabe-se que ele andou conversando demoradamente com lideranças nacionais do Partido dos Trabalhadores.

O encontro do Chefe da Casa Civil, Cláudio Puty, com o vice-prefeito Ítalo Ipojucan, nesta quinta-feira, é um indicador da impaciência a dominar os principais personagens da base aliada de Sebastião Miranda.

De repente, a leitura que se faz é de que o prefeito de Marabá teria perdido o time do processo, ficando a reboque dos acontecimentos.

Linha cruzada

À boca miúda: cerca de 600 telefones de Marabá estariam grampeados. Será?

Sem batas

Bispo D. José Foralosso, da Prelazia de Marabá, reunirá seu rebanho para oficializar decisão da CNBB de proibir padres de disputarem o pleito de outubro. Documento adverte que quem desobedecer deverá deixar o ofício eclesiástico durante a campanha eleitoral e o exercício de eventual mandato, podendo até ser suspenso do uso de ordem.

Sem controle

A consultora Trevisan constata com números o que já se sabia no avulso: governadores e prefeitos abriram os cofres nos primeiros cinco meses do ano e ampliaram os gastos muito acima da inflação. De janeiro a abril, as despesas não financeiras de Estados e municípios cresceram 14,5% em termos reais, em relação ao mesmo período de 2007.

Mais Febeapá

Pelos nomes comentados de listas partidárias em confecção, com seus futuros candidatos a vereador, dependendo do humor do eleitorado, a Câmara de Marabá poderá hospedar figuras dantescas. Tão ou mais vergonhosas do que o vereador Adelmo Azevedo (PTB), lambanceiro costumaz do legislativo local.

Assim como não há ficção mais brutal que a realidade, não há também nenhuma mais engraçada.

Picaretas oficiais

O DEM, mais uma vez, mostra sua verdadeira cara.

Essa é a corja que se esforça no Congresso Nacional a dar aulas de moralidade e ética na política brasileira.

quarta-feira, junho 11, 2008

Ao pé de ouvido

Logo mais a uma da manhã desta quinta-feira, o vice-prefeito de Marabá, Ítalo Ipojucan (PDT), pega avião da Gol para uma audiência política com o Chefe da Casa Civil, Cláudio Puty. O cardápio do encontro, marcado para o meio-dia, é a eleição para prefeito de Marabá.

Fim anunciado

As águas do Igarapé das Almas, município de Piçarra, ainda são cristalinas. Da ponte, é perfeitamente possível ver o fundo do córrego que deságua no Igarapé Cardoso. O desmatamento às suas margens, no entanto, sinaliza seu pouco tempo de vida pela frente. Os açaizais foram todos derrubados em favor do pasto e de plantações outras.

A foto mostra raros pés de açaizeiros em pé, aguardando apenas o próximo fogo de verão.

Igarapés com água límpida como esse são raros na região.

Gambiarreiros

Mais parecido com um depósito de areia comum às ribanceiras do Tocantins, é assim o “porto” de Tucuruí da Mc Log , empresa da Usipar que transporta minério e gusa de Marabá a Barcarena. A transportadora segue o perfil de improvisação da Cosipar, mãe de todas as mazelas do setor guseiro.
Enquanto isso, prenhe de razão, o Ministério Público não tira a lupa do grupo de Luiz Carlos Monteiro, especializado em construir lambanças.

Terra sem direitos

O irresponsável prefeito de São João do Araguaia, Marisvaldo Pereira Campos, fechou o terceiro mês sem pagar seus servidores, que desesperados, decidiram entrar em greve.
Mas fica por isso mesmo.
Daqui a uns dias, o gabiru obtém salvo-conduto da Justiça Eleitoral, registra a recandidatura, quebra a prefeitura e consegue se reeleger.

Pá de cal

Sebastião Miranda (PTB) deu um golpe de mestre no movimento sindical: encaminhou à Câmara Municipal projeto de lei concedendo R$ 100,00 de tíquete refeição aos funcionários públicos.
Bandeira histórica do Sintepp, o valor do benefício ficou bem acima dos índces defendidos anteriormente pelos movimentos sociais.

Cheiro de gente

À frente da Fundação Zoobotânica de Marabá, o médico Jorge Bichara estimulou seus amigos dirigentes de organizações não-governamentais na mobilização do público que lotou o auditório da secretaria de Saúde durante a audiência pública organizada pelo Ministério Público Estadual, terça-feira, 10. O resultado do encontro superou expectativas.

Conta não bate

O Pará está incluído entre os 18 Estados que não cumprem gastos mínimos obrigatórios em saúde previstos na Constituição. Da lista, apenas nove unidades da Federação estão investindo dentro da lei: Tocantins. Santa Catarina, Acre, Roraima, Amapá, Rondônia, Amazonas, Rio Grande do Norte e Distrito Federal.

terça-feira, junho 10, 2008

Recanto de paz

O casal João e Maria das Graças vivia à beira do Tocantins como vazanteiros, vendendo melancias e legumes. O que faturavam, mal dava para o sustento da família.

Um dia, vendo na televisão um balneário construído perto de Palmas em um local parecido com o deles -, e onde residem havia 25 anos, meia hora acima da foz do Araguaia -, sonharam ter algo parecido.

Sem pressa, começaram a trabalhar o ponto, construindo a maloca, chuveiros, mesas cobertas com imbaúba, e espalhando areia numa área de 150m2 em formação de praia. Detalhe: preservaram toda a mata do entorno.

Deu certo.

Hoje, João e Maria recebem na “Chácara da Paz” uma clientela de familiares com demanda superior à planejada, oferecendo bom atendimento, cerveja geladinha, e comida caseira. A galinha caipira é feita na hora, com direito ao cliente acompanhar todo o processo de preparação – dando palpites, se quiser!

Só quem viaja esse Brasil de contrastes inigualáveis pode conhecer tanta coisa bela. Simples, mas bela – porque carregada de calor humano.

Algodão-doce

As três pesquisas realizadas em Marabá nos últimos 15 dias, com suas diferentes intenções de votos, pelo menos é igual quanto à popularidade de Lula. O presidente atinge igualmente 73% de simpatia popular.

Fato novo

PDT, PSB, PV, PRB e PCdoB começaram a ensaiar os primeiros passos para a formação de um grupo independente das forças políticas locais – leia-se, PTB, PMDB e PT -, mirando a prefeitura de Marabá. Conversas iniciais entre o vereador Sebastião Ferreira (PSB) e o vice-prefeito Ítalo Ipojucan (PDT) foram proveitosas, estimulando um segundo encontro, ocorrido ontem, com o médico Jorge Bichara (PV).

Agora, os três (Sebastião Ferreirinha, Ipojucan e Bichara) agendam encontros com o médico Nagilson Amoury (PRB) e com Edmilson Sanchez, presidente do PCdoB, visando a formação de uma chapa majoritária.

Salão acústico

O vereador Maurino Magalhães (PR) está ficando isolado no processo de definição eleitoral. Ele conversa com todos os partidos, mas a todos diz a mesma coisa: não abre mão da cabeça de chapa. Resultado: estaria, hoje, com as portas fechadas do PSDB, PTB, PV, PSB, PT, e, devido a polarização apontada nas pesquisas com o deputado Asdrúbal Bentes, com o PMDB.

No andar da carruagem, corre o risco de ficar falando sozinho. E sem tempo de televisão para dar boa noite aos eleitores.

Diferenças iguais

A chapa a ser formada pela dupla Luiz Resende (PT) e Diogo Naves (PV), com apoio declarado e irrestrito de Sebastião Curió (DEM), pode até não ganhar a eleição de Curionópolis, mas já conquistou o troféu de bizarrice eleitoral da década.

Unir iguais em partidos díspares é algo a merecer estudos da sociologia. E de antropólogos.

O inferno virá

Muito tempo atrás, o blog registrou que a vida do belenense no trânsito passará a ser pior do que a já existente, regularizada a atividade de mototaxista no município.

O tempo dirá se o poster tem ou não razão.

segunda-feira, junho 09, 2008

Ruído de riachos

Prainha do Igarapé Novo, afluente do Alto Itacaiúnas, fica de frente para uma pequena corredeira formada por pedrais. As águas, mansamente, batem em sua fronte e escorrem à esquerda, procurando o rio. Paradisíaco descoberto por poucos, felizmente nem mesmo as autoridades do município onde fica a beleza natural se deram conta de suas potencialidades.

Para quem gosta de pescar quietinho, é o céu.

Chaleira de mudubim

De repente, algumas figuras marabaenses transformaram Roberto Jéferson (PTB) numa estrela de primeira grandeza, com direito a tietagem e sessão de autógrafos. O fato ocorreu durante todo o sábado, tempo em que o ex-deputado federal cassado - e um dos coordenadores do Mensalão -, permaneceu na cidade para dar palestras ao Partido Trabalhista Brasileiro.

Como diziam os antigo, “porco ruim é que acha batata rasa”.

Força divina

Na coluna desta terça-feira,10, do poster no Diário do Pará, distinto público saberá por que o vereador Maurino Magalhães, evangélico fervoroso, não abre nem pro cão sua condição de pré-candidato a prefeito de Marabá.

Kit voto

Tem jabaculê de empreiteiras correndo liso e serelepe em alguns órgãos públicos. A ordem é aumentar a alíquota de 20 para 25%. O caixa de muitas pré-candidaturas começou a ser enfeitado.

Torrando grana

Na tarde de sábado, o blogger conversou com técnico do TCM preocupado com as contas públicas de muitas prefeituras do Sul do Pará. Irremediavelmente, conta, a maioria não atenderá este ano às exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal por conta do escancaramento de gastos verificados a partir de março. Segundo ele, “um ano eleitoral atípico, comprovadamente diferente dos demais”.

A revelação originará duas conseqüências, apenas. Primeira, os gastadores gastarão, sim, sem outros riscos mais graves; segunda: os próximos prefeitos passarão dois anos pagando contas dos outros, com graves conseqüências às comunidades pobres, e promovendo gastos próprios a mais, construindo, outra vez, a conhecida roda-viva de irresponsabilidade.

Ninguém controla essa corja.

Em cinemascope

Enviada por Gerson Nogueira, Diretor de Redação d’O Diário do Pará:

Os grandes sucessos do cinema, ao serem exibidos em Cametá, uma bonita cidade do
interior do Pará que tem um português muito particular, não davam público. Então, a sala de cinema estava quase indo à falência. Para salvar os negócios, o proprietário resolveu adaptar seus títulos ao dialeto local. Pronto, fez fila, ninguém perdia um filme.

Aqui vão alguns exemplos:


"Velocidade Máxima" - Rápidu pra Purra

"Duro de Matar" - Escruto de Morrer

"Esqueceram de Mim" - Me Deixaram Suzinhu

"Coração Valente" - Curação Macho

"Free Willy" - Pirarurucu Purrudo

"Tubarão" - Mapará Qué Matá

"Tubarão II" - Mapará Qué Matá de Nuvo

*Obs: O filme TUBARÃO III, no caso MAPARÁ QUÉ MATA DE NUVO E DE
NUVO, não teve público, pois o povo achou que era um filme muito 'pitiú'.

"Titanic" - Narfrágio do Fé em Deus

"Máquina Mortífera" - Jegue Invocadu

"Fantasma" - A Visage

"Querida Encolhi as Crianças" - Muié, as Criança tão Gititas

"Corra Que a Polícia Vem Aí" - Fica na Bicora que os Mata-Cachorro já tão na Ilharga

"Priscila, a Rainha do Deserto" - Bando de Fresco Alegre

"Às Margens da Loucura" - Na Ilharga da Lucura

"Tomates Verdes Fritos" - Mandioca Incruada e Rançosa

"Rio Babilônia" - Igarapé Amardiçuado

"Amor Selvagem" - Trepada na Beirada

"Poço das Vaidades" - Olho d'Água Luxento

"Splash, uma Sereia em Minha Vida" - Spraxi, Minha Muié é um Tucunaré

"A Gaiola das Loucas" - Arapuca de Viado

"9 1/2 Semanas de Amor" - Quase 10 Semanas de Nheco Nheco

domingo, junho 08, 2008

Debaixo d’água

Gosto de sentir cheiro de água de rio.

Quem mora próximo às ribanceiras é mais feliz. Sabe medir o tempo exato entre o nascer e o poente do sol.

Lembrando de meus rios que deixei ao tempo em caminhos molhados de paz, carrego no peito lentos sussurros de cachoeiras, nascentes de igarapés em cheia.

Como chuva a cair sem parar, essa saudade de rios me aflige.

Costumo dizer que são alegres, as comunidades ribeirinhas.

Ou como realça o poema: “Só na foz dos rios é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes”.

Cantinhos de saudades

Às vezes acordo com saudades dos tempos em que Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano e Chico produziam obras de arte. Faz tempo, muito tempo, não pego mais em um CD com música inéditas do time. Deve ser preguiça para compor, ou falta de tempo.

Insuportável assistir a tantos relançamentos. Sinto até desrespeito ao público, as gravadoras tentarem nos empanturrar com “novos arranjos”.

Ontem à noite, ao selecionar músicas para postagem de domingo, dei de cara com “Pai Grande”, de Milton. Versos arrepiantes provocadores de saudades. Muitas saudades:

Minha gente é essa agora
Se estou aqui
Eu trouxe de lá
Um amor tão longe de mentiras
Quer a quem quiser me amar

Atentado ao pudor

João é mecânico, 49 anos, tem cinco filhos, trabalha numa terceirizada de uma guseira de Marabá, irmão do mestre de obra de um prédio em construção ao lado de minha casa.

Na sexta-feira, antes das 19 horas, andando pela erma rua da retirada Folha 5, na Nova Marabá, rumo à sua residência, João era facilmente identificado como um operário. O ar de quem estivera trabalhando desde às seis horas da manhã, a roupa pedindo outra, o radinho de pilha sintonizado na Clube e o detalhe da marmita embaixo do braço e embrulhado em folhas de um jornal.

Três marmanjos, andando em sentido contrário, com seus respectivos tresoitões nas cinturas, soltando faíscas pelos olhos, eram ainda mais identificados como perigosos assaltantes à mão armada.

Assim que o pobre operário os viu, estremeceu nas bases e pensou alto:

- Minha Nossa Senhora!

A santa, entretanto, não deve ter ouvido, pois teria barrado os passos dos bandidos, que avançavam ameaçadoramente. Logo que se viu cercado, o homem tentou correr, ocasião em que ganhou catiripapo no pé do ouvido, que o prostrou por terra. Ainda no chão, ouviu um revolver em sua nuca dizer que era melhor ficar quietinho, para não virar presunto.

Um dos assaltantes pediu um cigarro, recebendo um “eu não fumo, não senhor”. Novo catiripapo se fez sentir no operário, que é para aprender a fumar. O chefe do trio, caolho do lado esquerdo, desdentado, botou o revólver na cintura e disse:

- Sabe, amigão, gostei muito do teu rádio.

- Não faça uma coisa dessas – gaguejou o coitado -, esse rádio foi comprado com o suor do meu trabalho, ainda to pagando ele e não vou deixar cês levar ele não.

- Seguinte, filho-da-puta, vai sim – rosnou um dos meliantes. Você sabe que pra gente é difícil de adquirir um objeto igual a este, pois temos problemas com o SPC. Assim, você empresta ele pra gente.

Dito isto, arrebentou-lhe o “papagaio” da mão.

- Agora, ó meu, vai passando o dinheiro porque eu já estou perdendo a paciência.

Não havia a mínima razão para o marginal perder a paciência, visto eu o operário não estava opondo muita resistência, mas bandido adora dizer que está perdendo a paciência que é para impressionar. Se bem que na maioria das vezes, mesmo sem perder a paciência, apertam em cima de qualquer um, pum.

- Bem, eu só tenho o troco do ônibus.

- O quê? Tais a fim de fazer hora com a nossa cara? Então a gente perde um tempão e o praça vem me dizer que só tem meia dúzia de moedas?

O terceiro assaltante, que ainda não tinha falado, aproveitou e grunhiu:

- Ô rapaz, então tu não sabe que a gente ta sabendo que tu recebeu hoje?

- Cume que vocês sabem?

- O SMI - Serviço Marginal de Informação -, bateu pra gente.

- Eu botei o dinheiro no banco, respondeu João, imaginando que nesta segunda-feira, 9, teria que dar R$ 150,00 para a esposa levar a filha doente, de 5 anos, ao médico.

Depois de o revistarem dos pés a cabeça, o trio falou uníssono:

- Não leva a mal, não, mas a gente pode saber o que o distinto ta carregando aí na marmita?

- Sobra de arroz, feijão, farinha e sardinha.

- Então abre que é pra gente vê.

Diante da indecisão do operário, o bandidão-mór tirou-lhe a marmita das mãos, abriu e deparou com R$ 657,00, o que sobrou depois dos descontos de INSS, vale adicional, e alguns etecéteras .

- Ah! - sorriu de satisfação o vil chacal. - Querendo esconder a grana da gente, né? Tira a roupa.

- A roupa, não!

Depois do pescoção, começou a tirar, ficando pelado em plena via pública. Antes de fugirem com a roupa, os três ainda brincaram:

- Cuidado pra não ficar resfriado.

Do jeito que estava, João saiu correndo em busca de socorro, quando topou de cara na esquina com um veículo da PM circulando no bairro, que tinha acabado de passar pelos três cavalheiros simpáticos que ouviam um rádio de pilha dentro de uma marmita. Antes de conseguir exprimir alguma coisa, João ganhou voz de prisão.

- Tais pensando que está no paraíso, para ficar andando nu pela rua? – esbravejou o nobre policial.

A vítima só foi conseguir contar a sua história dentro de sua casa, para onde foi levada pelos policiais ao pedir que antes de ser conduzido à delegacia acreditasse na idoneidade dele, conhecendo a família que mora na Folha 5.