sexta-feira, dezembro 28, 2007

Trauma de infância

Pra saber como tudo começou, é só clicar no áudio abaixo.

Quem sabe, sabe

Sem querer ser cabotino, sendo: o blog e a coluna do Diário do Pará assinada pelo poster estão alguns metros à frente: todos os nomes citados, em primeira aparição na imprensa, nos dois espaços, para ocuparem cargos no governo Ana Júlia, estão confirmados.

No lugar de Mário Cardoso, vai mesmo a pró-reitora de Administração da UFPA, Billa Gallo.

O atual diretor de Endemias da SESPA,Walter Amoras, médico sanitarista, ocupará a secretaria Adjunto da SESPA.

Na Sead, a governadora optou pela estratégia do “esfria cuca”: orientou Maria Aparecida, titular do órgão, a tirar férias enquanto a poeira baixa.Isso pra evitar a troca no comando da secretaria. Por enquanto o que é certo, é a saída dos diretores para os próximos dias.

É só conferir.

Em diapasão

O entrosamento de Charles Alcântara com Cláudio Puty cada dia se consolida dentro do governo. Resultado: as tensões estão sendo administradas de forma eficaz. Como eles integram o núcleo mais próximo de Ana no organograma de governo, a afinação dos dois ativou um processo de conexão das outras secretarias. A tendência, diz a fonte, é a máquina começar agora a andar.

Ranking de desempenho

Categorizada fonte do círculo intimo de Ana Julia diz que ao completar um ano de governo, é possível apontar quem fez, quem não fez, quem fez de conta que fazia e quem nem uma coisa nem outra fez. Então ficou assim, nas áreas mais visadas:

Secretários de resultados: Charles Alcântara (Casa Civil), José Raimundo (Sefa), Cláudio Puty (Governo), Maurílio Monteiro (Sedect), Suely Oliveira (Sedurb).

Atuação mediana: Vandir Ganzer (Setran).

Secretarias desastre: Mário Cardoso (Educação), Vera Tavares (Segurança Pública), e Valdir Ortega (Sema).

Surpresa agradável: Joana Pessoa (Hangar).

Por trás da mira

Quem teve acesso ao processo que apura o assassinato do ex-presidente do Sindicato dos Garimpeiros de Serra Pelada, Antonio Clênio, encontra de forma bem explícita o seguinte:

Algumas restemunhas afirmam que Sebastião Curió teria escalado seu ex-assessor de imprensa, Joãozinho da Parabólica, para contratar alguém com intuito de dar fim no sindicalista que vivia fazendo oposição ao prefeito dentro de Serra Pelada.

Joãozinho da Parabólica contratou Mathias, que contratou Nego Josa, que deu o tiro certeiro em Clênio.

Na época, Nego Josa, um ladrão de roupa de fundo de quintal, ao ser preso, negou sua participação no crime, mas poucos dias antes de ser assassinado, contou aos parentes que teria sido contatado por Mathias para dar fim em Clênio.

Mathias encontra-se foragido e a Justiça de Curionópolis prepara o encaminhamento ao TJE do processo já que Curió tem foro privilegiado.

Conversando

A Albras realizou nesta sexta-feira, 28, a sexta edição do Diálogo Comunitário, com a participação de 80 líderes comunitários de Barcarena. Objetivo do encontro é abrir espaço para a sociedade civil organizada manifestar seus anseios, idéias e críticas. O projeto tem dois anos e até agora já contou com a presença de cerca de 400 pessoas.

Cartão amarelo

Sem entrar no mérito da questão, até porque segurança é segurança, inda mais envolvendo concentração de massa popular, a recomendação dos laudos técnicos do Corpo de Bombeiros pela interdição dos estádios Maximino Porpino, em Castanhal; Leandro Pinheiro, em Capanema; Parque do Bacural, em Cametá, Zinho Oliveira, em Marabá, Barbalhão em Santarém e Humberto Parente, em Abaetetuba – caso não sejam sanados os problemas apontados em cada localidade -, enterra também o conceito de Campeonato Estadual.

Sem jogos no interior, melhor a FPF cancelar a edição deste ano do torneio, restringindo-o apenas aos clubes da capital. Nenhum time do chamado interland tem condições de cobrir as despesas de seus elencos caso não conte com a vibração de sua torcida.

Se as prefeituras municipais não arregaçarem as mangas para atender as exigências de
segurança, os estádios ficarão do jeito que estão. O poster sabe como isso funciona no interior.

Aviso aos navegantes

Fausto Ferraz ganhou na justiça o direito de receber R$ 544 mil do PT por cuidar da campanha do partido no estado do Mato Grosso. Ferraz assumiu a campanha após ser indicado pelo então vice-presidente do PT mineiro, Romênio Pereira, hoje secretário nacional de Organização do partido. "Tínhamos candidaturas importantes como a da senadora Serys Slhessarenko e a do deputado federal Carlos Augusto Abicalli, mas a nossa prioridade era a disputa presidencial", declarou Ferraz, que, à época, filiou-se ao PT.

Ferraz afirmou que o pagamento foi interrompido em 2005 com a queda do ex-tesoureiro Delúbio Soaresm, apontado como um dos operadores do mensalão. Em agosto deste ano, o STF (Superior Tribunal Federal) abriu processo para apurar a suposta participação de Delúbio e outras 39 pessoas no mensalão. Em novembro, Edleuza Zorgetti Monteiro da Silva, juiza da 5ª Vara Civil do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, reconhecei o direito do publicitário e condenou o diretório estadual do PT a pagar o que devia. A decisão é de primeira instância e o partido pode recorrer.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Umas & Outras

Na atual fase 12:00 PM do poster, atualização do blog só na valsa:

Secretaria 1
Diante de crise que se anuncia de forma incontrolável na Sead, Ana Júlia não deixará pedra sobre pedra. De uma canetada, demitirá o secretário Adjunto Alfredo Junior e os diretores Rômulo Amoras, Érica Barbosa e Célia Haber.
No embalo, e a contra-gosto, a governadora passará a borracha também na titular da secretaria, Maria Aparecida, para amainar a ira do senador/filho Ademir-Cássio Andrade.

Secretaria 2

O RD de hoje está corretíssimo: Geraldo Araújo deverá mesmo ir para o lugar de Vera Tavares. Só uma grande zebra o impede de assumir a secretaria de Segurança.

Secretaria 3
Na Educação, sai Mário Cardoso para dar lugar à pró-reitora de Administração da UFPA, Billa Gallo, como diz confiável fonte, “por simples falta de opção”. Aliás, a futura secretária será recebida ainda hoje pela governadora e seus secretários Charles Alcântara e Cláudio Puty.

Dobra do alicate
O prefeito de São João do Araguaia, Marisvaldo Pereira Campos, começará 2008 envolvido com citações. O Ministério Público pedirá seu indiciamento.

Tiro & queda
Sebastião Curió definitivamente encerrará seu mandato nas páginas policiais. Justiça de Curionópolis encaminhará ao TJE processo que apura o assassinato de Antonio Clênio, ex-presidente do Sindicato dos Garimpeiros, tendo o prefeito do município como principal suspeito de mandante do crime.

Conversa de garimpeiro

Nada a ver matéria publicada no sul do país dando conta de que guerrilheiros do Araguaia teriam pedido alvará de lavra para a área onde hoje se instalam alguns dos grandes projetos da Vale. Inclusive Serra Pelada. O blog vai trazer à lume depoimentos de quem viveu a refrega e garante não ter nenhuma procedência esse papo.

Até mais ver

Amanhã, detalhes dos tópicos acima e outras mumunhas.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Chaplin e a Vida

30 anos sem Chaplin, aconselho você ir à primeira locadora e pegar tudo o que ele fez, mostrar aos filhos e netos.

Na tela, a vida é mais bela. Com Chaplin.

Nos textos, quatro pensamentos dos milhares deixados por ele, e Smile, inesquecível peça musical de nosso eterno palhaço:


1
“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”

2
"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso".

3
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos".

4
"Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão. Creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder".

Smile
Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Natal no Sapecado

O sorriso maroto indica falta de motivos para comemorar o Natal. “Eu nunca soube o que é isso, só aqui mesmo com minha Véia. Deve ser bonito na cidade, a gente escuta tudo pelo rádio”.
A “Véia” de Zé Ceará apenas ri, nada fala, vez por outra grita o nome dos meninos a correrem no terreiro. Os dois moram juntos faz 42 anos, mas dona Maria das Graças se perde nas contas e fala “aí por perto de 50...”.

Passando pouco mais das 18h30, com voz alta, a convocação geral:

- Madalena... “Ontonio” ... Salvador ... Neguin ... Jurema ...Lucas... Valmira... a comida tá na mesa!!!

Obediente, a meninada chega e é ajuntada em volta da mesa da sala, de madeira, firme, que “Ceará” mesmo fez. São netos do casal de onze filhos procriados. Duas lamparinas são acesas sobre a mesa. Na região do Sapecado onde moram Zé e Maria, ainda não chegou a Luz para Todos. A rede em extensão encontra-se perto. Pode ser que até junho de 2008 ilumine o barraco da família.

No quase anoitecer, o jantar não é de gala, nem de galo. É uma deliciosa galinha caipira morta uma hora antes diante de nossos olhares. As mulheres da família, num total de seis filhas, cuidam das panelas na lenha ainda estalando de queimar. O cheiro de café coado espalha-se pelo ambiente deixando em seu interior agradável satisfação. É tão bom sentir aroma de café feito na roça!

Sentados, já do lado de fora da pau-a-pique, olhamos para o céu cheio de estrelas. Parecem mil-e-tantos vaga-lumes no meio do mato escuro! Sob a claridade que vem do céu, dá pra ver boi Ciço, que tem a graça em homenagem, claro, ao padre santo dos cearenses. O animal fica ali perto da casa toda noite daquele jeito, deitado, “só pensando em coisa ruim”, diz o anfitrião -, sem explicar quais maldades o boi tem.

Já passa das 20 horas. Pelo menos para dona Maria das Graças, a conversa vai finando que nem cigarrinho-de-paia. Observa, fechando os olhos e abrindo-os, vez por outra, certamente na vã tentativa de demonstrar estar atenta a conversa.

Será que o serenozinho que começa a espalhar-se da mata umedece os sonhos de dona Maria? Que sonhos ela tem?

A criançada brinca, correndo e gritando, com a barriga cheia, feliz, sob o luar da Amazônia em seus últimos dias de aparição límpida antes do inverno que promete ser avassalador. Escuto leve ronronar saindo de dona Maria, entregue ao sono. Miudeza de tempo.

Hoje cedo, 25, lembrei-me do dia e noite em que passei com minha equipe da VídeoV, sexta-feira última, gravando externas para um documentário sobre Agricultura Familiar, no assentamento de seu Ceará.

Lembrando, tenho absoluta certeza de que no Sapecado, pelo menos na casa do maravilhoso casal, Papai Noel não passou por lá. Não que o breu da noite tenha escondido o barraco. “Se for pra dar presente prum menino desse aí, tem que dar pra todos senão é uma injustiça de nem Padin Ciço perdoa. Como não temos dinheiro, aqui não tem Papai Noel”

Madalena, 12 anos; Antonio, 10 anos; Salvador, 7 anos; Neguin, 6 anos; Jurema, 8 anos; Lucas, 6 anos; Valmira, 9 anos. Netos de Zé Ceará e dona Maria das Graças, aparentemente pareceram meninos felizes, protegidos pelo carinho e atenção de pais e avós -, morando em lugar a carecer ainda de tudo para se ter vida digna.

Ao vê-los ali brincando e livremente soltos entre bichos e matas (do pouco que ainda resta) deu para perceber o quanto estavam alheios ao Natal. Quem sabe, eles sim, fazendo o Natal de todo dia que sonhamos ter.

Sempre tive a certeza de ser o amor, quando plenamente realizado, o principal fator do processo genético que determina as mutações necessárias para a sobrevivência da espécie humana. Mesmo sendo pobres residentes na zona rural, os netos do casal demonstraram evidente relação entre o ato de serem amados e a ludicidade da existência, pautados por ações que exprimem os grandes prazeres da infância: brincar, correr, cansar e dormir.

Concordando com George Groddeck (médico e pioneiro da psicossomática), o homem é o que ele foi e viveu até o fim da adolescência.

Lá no Sapecado, cada um faz de cada um seu brinquedo sincero. E a meninada é feliz.

Sem papai Noel à porta.

De saco cheio de Papai Noel

Minha essência é feita de esperanças. Acredito firmemente em um mundo mais justo, em dias melhores e em pessoas felizes!

Nunca consegui escrever sobre Natal. No fundo, considero a data muito chata. E isso não é coisa de gente rabugenta. É um sentimento sincero dos efeitos de uma data que não me cai bem. E olha que sempre gostei de “inventar” natais diferentes para meus filhos. Ao meu feitio.

Sinto impossível escrever texto até falando mal do Natal. Tipo assim: não cheira e nem fede.

No fim de 1979, eu e meu amigo Osvaldo Alencar, advogado fundador do Partido dos Trabalhadores em Imperatriz (posteriormente primeiro candidato do PT a governador do Maranhão que não chegou a ter 5 mil votos no Estado), lançamos uma revista quinzenal chamada “Momento” que durou exatamente o tempo previsto: três meses. Nessa época, para saudar o Natal, bolamos engraçada entrevista (fictícia, claro!) com Papai Noel que se revelava de “saco cheio” de tanto perambular o mundo distribuindo presentes. Na mesma edição, a quatro mãos, escrevemos bela matéria a respeito da inexistência de Papai Noel. Ou seja, estávamos dispostos a anarquizar!

Em verdade, não havia nada o que escrever: a cultura entre de recesso durante as festas de Natal. É como se todo mundo emburrecesse mais um pouquinho.

A matéria ficou engraçada. A gente inventou lance de uns malucos japoneses fazendo cálculos absurdos da velocidade que o trenó do Papai Noel teria de atingir se quisesse, de fato, entregar presentes a todas as crianças. Eu me lembro de rir muito. Repercutiu tanto o artigo que alguns amigos e parentes resolveram profetizar o risco de sermos castigados por causa da matéria anti-Papai Noel. E nem sabíamos o Bom Velhinho ter tanto poder assim.

Durante anos cheguei a apontar o negro Aziz como culpado de meu distanciamento do espírito natalino. Criado desde pequeno pela minha avó materna, Aziz mais tarde se revelaria um homossexual rejeitado pela sociedade reacionária da Velha Marabá – naquele tempo um amontoado de casas com pouco mais de 30 mil habitantes (A Velha Marabá, mais velha, mais povoada, continua também mais reacionária como nunca se viu).

Todos os anos, a partir de 1º de dezembro, Aziz montava lindo presépio na casa de meus avós. Verdadeiro presépio. Ao lado dele, gigante árvore de Natal. As luzes do presépio, a manjedoura, vaquinhas, burros, pastores, Anjo, Reis Magos, incenso, mirra, a Estrela Guia desenhada no papelão formando céu pairando sobre o cenário da Belém de Nazaré, e a imagem do bebê Jesus. Aquilo me encantava.

Quando chegava 7 de janeiro, data em que a obra de arte era desmontada pelo bom negro Aziz, imensa tristeza me dominava por alguns dias.

O presépio foi destituído da casa de meus avós após o suicídio de Aziz, que resolvera procurar Jesus em outras plagas virando na boca um recipiente cheio de soda cáustica. Nunca mais se fez presépio na gostosa casa de Tufy Gaby e Tunica. Passei mais de uma década maldizendo Aziz pela sua atitude. Ele nos fez falta ao deixar imensa lacuna nos seio da família que muito o amava.

Nos dias atuais, tenho certeza de que meu distanciamento do “sentido” natalino nada tem a ver com a auto-extinção de Aziz. Sinto, sim, verdadeiro incômodo por certa mentira no ar. Pode ser isso: Natal passou a ser “festa” mentirosa. Num clic, tudo de bom parece ocorrer na madrugada de 24 para 25 de dezembro. Como se as infelicidades cessassem, maldades esquecidas, homem virando santo, todos se certificando de serem bons -, e a maldade, durante o resto do ano, apenas resíduo de um desvio de conduta involuntário.

Quem critica o Natal se concentra na perda do sentido religioso e no foco meramente comercial da data. Para isso, dou de ombros. Nada a ver, também.

Incomoda, sim, o torpor impregnado. Fantasia movendo ridículo sorriso passageiro. E a falsidade que faz das pessoas mais abjetas dignas de admiração – só porque é Natal.

Não me sinto melhor por isso. Para ser sincero, até me acho pouco pior. Gostaria, verdadeiramente, de estar envolvido no processo.

Como de todo não faz bem a mim fingir certas coisas, resta-me, pois, como consolo, comer muita rabanada e rezar para que o tempo passe mais rápido. Rumo às resoluções de Ano Novo.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um ponto, só.

Ademir Andrade e seu filho, deputado Cássio Andrade (PSB), decidiram mesmo partir pro tudo ou nada no confronto com sua ex-aliada e indicada Maria Aparecida, atual secretária de Administração do governo da Ana Júlia. O fato se deve ao grito de independência de Aparecida, refratária a qualquer tentativa de ser denominada empregada do ex-senador, e a briga interna na SEAD entre Ayeda Fontes com a namoradinha do deputado Cássio, recém formada em Direito, e que gosta –exigindo sempre – de ser chamada “doutora Lílian”.

Por causa do conflito entre Lílian e Ayeda, deputado Cassio Andrade exige a demissão da diretora Ayeda Fontes, irmã de Edilza Fontes, dirigente da Escola de Governo, e pessoa de extrema confiança da governadora. No ritmo da batucada, a direção do PSB (leia-se família Andrade) solicitou a imediata saída da secretária, indicando uma lista com três nomes para substituí-la: Alfredo Junior, secretário Adjunto; Célia Haber, advogada coordenadora jurídica da SEAD e irmã mais velha do chefe de gabinete do deputado Cássio; e o professor Erickson Barbosa, ex- presidente da CDP.


Agora, ninguém se entende dentro do PSB. O pau quebrou de vez. A secretária Maria Aparecida tem telefonado para os militantes do partido solicitando apoio e solidariedade para continuar no cargo e já conseguiu mais de 80 assinaturas dos DAS de sua secretaria – ao mesmo tempo em que luta para expurgar o secretário-Adjunto, Alfredo Junior; o diretor Romulo Amoras (enteado de Ademir); Érica Barbosa, diretora; e Célia Haber, coordenadora Jurídica.

Pequeno já era. No embalo, o grupo de Ademir “Docas” Andrade se transformará num musgo.

Abaetetuba, meu amor!

Depois do caso da menor currada na delegacia de polícia, Abaetetuba ficou sendo a bola da vez. Todo dia o nome da cidade aparece à reboque de fatos negativos.

O blog faz seu protesto, abrindo espaço para gritar efusivamente bem alto o nome do município.

Abaetetuba de meninas bonitas, cabelos longos e lisos; indiazinhas paraenses cheias de hãn-hãn-hãns, pele morena, caboclinhas padrão a querer apenas um pouco de nossas atenções.

Se observarem bem, as mulheres de Abaetetuba são diferentes de todas as outras mulheres paraenses. As de Abaetetuba e Cametá, melhor dizendo: sangue puro feminino com gosto marajoara.

Abaetetuba da feira. A feira de Abaetetuba.

São mais de 1 km de feira margeando o rio Maratauira (afluente do Tocantins) povoado de barcos que trazem e levam de tudo. Até o que não presta. E aí é onde moram os mistérios dessa cidade boêmia, de gentes nascidas com cheiro de água. Bendito ó fruto, entre as cidades.

Parar na feira para comer peixe frito - ou carne de jacaré -, misturado a açaí gelado com farinha seca, meu pirão-primeiro. Nem o Ver-o-Peso tem igual.

Na pracinha da Matriz, à noite (foto), depois das 22 horas, sentar em seus bancos tocando violão estimulado pela melhor cachaça da região, feita por alguns amantes de alambiques ainda em atividades.

Ao longe, muito longe, o som dos popopós zuando em busca de atraque ou saindo do porto.

Vida de Abaetetuba é assim. Melhor do que vida de interior.

Viva Abaetetuba!

Esquentando cadeira

Edson Alvarenga (PTB) tomou posse hoje no cargo de prefeito de Nova Ipixuna, eleito quinze dias atrás em eleição convocada pelo Justiça para cobrir vacância do ex-prefeito Zezão (PT), cassado por prática de irregularidade durante a campanha de 2004, que o reelegeu para mais quatro anos

Deus proteja a população de Nova Ipixuna. Em nome do Pai, Filho, Espírito-Santo...

Comendo a franga

O negócio é sentar na presilha até comer o peito da franga.

Mais ou menos assim é o pensamento de pecuarista amigo do blogger ao comentar a invasão da área de reflorestamento Pioneira, do Grupo Cosipar, promovida pelo mesmo grupo do MST que tomou de assalto há quatro anos a fazenda Peruano. A explicação dele refere-se a necessidade dos proprietários terem sua própria segurança particular armada.


- Até a gente esperar ação dos governos e da Justiça, no sentido de nos restituírem o direito à propriedade, perdemos grande parte do que construímos. Principalmente aquilo mais grato ao ser humano: a auto-estima de estar edificando algo e vê-lo, de repente, destruído.
A propósito, o governo assinou decreto, semana passada, prevendo multas para quem produzir, transportar e comercializar produtos em áreas ilegalmente desmatadas. O valor das multas a serem aplicadas deve girar em torno de R$ 5 mil por hectare desmatado.

Perguntinhas: o decreto prevê alguma punição para quem invade e promove idêntica destruição em área reflorestada? Qual a multa a ser aplicada a quem toma de assalto essas áreas? O MST e demais organizações sociais de plano rural responsáveis, hoje, pela destruição de matas e queimadas, também são passíveis de punição ou passam ao largo do decreto presidencial?

Uma coisa é certa: a Pioneira, assaltada por um comboio parido na fazenda Peruano, tem mais de 4 mil hectares plantados, mas corre o risco de ser desapropriada diante da fúria com que os coordenadores da invasão bradam aos quatro ventos.

A Cosipar investiu mais de quinze anos na plantação de 600 alqueires de eucalipto, está fazendo o dever de casa. Se bobear, agora, mesmo sendo agente passivo dos distúrbios em sua propriedade, será punida. De um jeito ou de outro.

Dois mais dois

Uma continha rápida: o custo por hectare do plantio de eucalipto é de R$ 8 mil, até o período de seu desfrute. Na ponta do lápis, esse custo equivale a R$ 4 mil por hectare nos primeiros 90 dias de plantio, mais R$ 4 mil até a fase de corte, em torno de sete anos.

Ou seja, o reflorestamento da Pioneira invadida está custando para a Cosipar exatamente R$ 32 milhões.

Quem paga esse prejuízo?

Se mal perguto...

Durante ato de assinatura do decreto que estipula altas multas a quem promover derrubadas, a ministra do Meio Ambiente Marina Silva, diante do presidente Lula, disse textualmente que “o aumento do desmatamento da Amazônia (cresceu 10% nos últimos quatro meses) deve ser considerado um castigo”.

Um castigo, acrescente-se, proveniente das ações incompetentes do próprio Ministério do Meio Ambiente comandado pela acreana, que mexe aqui, mexe acolá -, e tudo continua como dantes. Ou pior. Os números dela comprovam. Silva não consegue estabelecer efetivamente uma política preservacionista capaz de evitar danos ao meio ambiente sem desestruturar o setor produtivo.
Não aceitamos de forma alguma a forma predatória com que alguns teimam trabalhar na Amazônia. Da mesma forma, consideramos crime paralisar todos os segmentos de produção como está ocorrendo em alguma regiões, em nome de uma sustentabilidade que o governo não consegue estabelecer.

Não está na hora de Lula fazer um balanço desses anos de Marina Silva à frente do MMA?

Notebook escolar

Está definido que o Pará terá direito a 7.203 máquinas do programa UCA - Um Computador por Aluno, mais conhecido como laptop popular. Como a escolha das instituições de ensino que participarão do projeto piloto é por conta dos governos estaduais e das secretarias municipais de ensino, espera-se árdua batalha de deputados, prefeitos e vereadores para a priorização de suas localidades.
A coisa promete.

Em tempo: a configuração do laptop até que não o caracteriza como carroça, considerando as especificações mínimas de 256 MB memória RAM, unidade de armazenamento tipo NAND flash com pelo menos 1 GB, sistema operacional baseado em software livre em português, duas portas USB, tela de cristal líquido (LCD) de sete polegadas, teclado com proteção contra derramamento de líquidos, controladora de rede sem fio integrada, suporte para os padrões 802.11 b/g, webcam acoplada ao equipamento e bateria com autonomia de três horas.

Melhor do que muito desktop Celeron disponibilizado no mercado.

Ao cantar do galo

Foram quase 30 dias de ‘venta enfiada’, como se diz nos grotões. Somente na tarde de sábado, o sufoco chegou ao fim. Até então, o blogger vivia a fase 06:00 Am, horário em que já estava de pé.

Desde sábado, a fase passou a ser 12:00 Pm, que esperamos se prolonga até o dia 02 de janeiro de 2008, quando então normalizaremos a vida e as atualizações do blogue.

Muito de boa essa fase 12:00 Pm. Muito de boa.

NB- Até o dia 2 de janeiro, o blog será atualizado, a qualquer hora do dia ou noite.

domingo, dezembro 23, 2007

“O melhor presente é sempre o amor”

Se a gente é capaz de espalhar alegria
Se a gente é capaz de toda essa magia
Eu tenho certeza que a gente podia
Fazer com que fosse Natal todo dia
(Maurício Gateani)

Aqui fala Rádio Tirana...

Sempre gostei de sintonizar o dial de emissoras AM. Agradável mania arraigada desde meus 10 anos de idade quando gozava as férias escolares em um castanhal de meus pais, às margens do rio Vermelho – afluente do Itacaiúnas. À noite, dentro de ume rede coberta por longo mosqueteiro estrategicamente colocado para nos proteger das picadas de pernilongos e mosquitos transmissores da malária, ficávamos a ouvir estórias dos ingênuos castanheiros que logo dormiam, cansados da labuta diária.

Como o sono demorava a chegar, eu ligava o receptor na estação de melhor qualidade de sintonia, varando a noite ouvindo locutores de todas as partes do país - , quando não me enfurnava a buscar estações do Líbano que meu avô providencialmente ensinara desde meus sete anos -, “para aprender a falar árabe”, dizia ele com seu sotaque “portulibanês”.

Anos depois, o vício pelo rádio me transformaria num excêntrico colecionador de receptores recém lançados no mercado. Carreguei esse hábito até a predominância das estações FM, que paulatinamente foram invadindo o dial e, provocando também, transformações no perfil dos fabricantes que deixaram de investir em bons receptores. A partir dos anos 90, tornou-se difícil encontrar um aparelho de rádio AM de boa qualidade. Aos poucos, também, fui perdendo o encanto pelo veículo que mais paixão me provocou. E fetiche.

A verdade é que foi o Rádio, numa noite de passeio pelo dial de um receptor Transglobe 2148 (melhor modelo da melhor marca fabricada em todos os tempos) quem me revelou a existência da Guerrilha do Araguaia.

Corria o ano de 1973. Sem querer, naquele lance de pesquisar estações, parei numa freqüência que a cada minuto, entre um sobe e desce de trilha com marchas e hinos marciais, destacava a bonita voz grave de um locutor:

- Aqui é a Rádio Tirana, falando diretamente da Albânia para o Brasil, com mais um programa noticioso sobre as forças guerrilheiras do Araguaia que lutam para libertar dos usurpadores do poder, o povo oprimido e pobre da Amazônia.
A frase, ilustrada com suave BG (fundo musical), era repetida diversas vezes, antes de entrar o noticiário da noite. Espécie de chamada preparatória para segurar audiência.

A partir dessa descoberta, o hábito que temos hoje de acessar a Internet, eu tinha de ouvir a Tirana. Toda noite, onde estivesse, haveria um receptor a me acompanhar para a sintonia obrigatória. Em pouco tempo, meus amigos passaram a fazer o mesmo, e criou-se uma corrente de ouvintes da emissora albanesa, país que se manteria por longos anos a última trincheira do comunismo mundial.

Naquele tempo, algo me intrigava: a rapidez com que os fatos ocorridos no front do Bico do Papagaio chegavam ao conhecimento dos redatores do programa dirigido ao Brasil. Notícias fresquinhas de tudo o que acontecia aqui. Não que a gente soubesse dos fatos “fresquinhos” noticiados por alguma emissora de rádio brasileira. Impossível. A ditadura jamais permitira. A Tirana, em verdade, era o único meio pelo qual podíamos saber o que estava acontecendo no Brasil.

Nosso herói anônimo
A resposta para a minha curiosidade obtive somente mês passado, trinta e quatro anos depois. Mais precisamente depois de descobrir o endereço de certo alguém, filho de ex-mecânico de veículos bastante conhecido na Xambioá dos anos 60/70.
Nas longas entrevistas com as vítimas da Guerrilha do Araguaia, seu nome foi sugerido como a de outra pessoa conhecedora do confronto. Todavia, recebi duas orientações, se pretendesse obter sucesso em minha empreitada:

1- Não revelar o nome do personagem nas matérias a publicar;

2- Ocultar também a localidade onde reside atualmente o senhor com sua família, ainda temerosos de perseguição. Saldo do trauma da guerrilha.

Parei numa oficina no centro da cidade com a desculpa de tentar descobrir ruído estranho que de repente surgira no carro. Em verdade, o barulho irritante aparecera cinco dias antes -, resultante de uma borracha do amortecedor danificada.

Um educado e brincalhão mecânico, dono da assistência, enquanto vasculhava o veículo, revelou-se profundo conhecedor da região. Só isso já me bastava para, com habilidade, forçar o cidadão – 59 anos, 5 filhos -, a falar sobre o surgimento das cidades do Sul do Pará que ele revelava surpreendentemente um expert. Em pouco mais de 40 minutos estávamos familiarizados. E ele não teve dificuldades em se abrir mais ainda quando tomou conhecimento de minha identidade:


- Quando morei em São Domingos, gostava de ouvir o que você falava na Rádio Itacaiúnas, principalmente quando ‘chafurdava’ a classe de políticos desonestos.

Lembrou Manoel (nome fictício), a fase em que eu dirigia a primeira emissora de rádio de Marabá, por volta de 1986/88.

Passava das 18 horas quando o problema do carro foi solucionado com a troca da borracha do amortecedor direito. Na oficina, mais três rapazes o ajudavam – um deles, o filho caçula. Como não podia perder a oportunidade de sugar informações de meu mais novo amigo já que decidira permanecer o dia seguinte na cidade, convidei-o para jantarmos. Ele foi mais insistente: queria a qualquer custo me levar à sua casa para conhecer a família, dizendo que providenciaria algo para comermos.

Depois do banho e troca de roupa no hotel, Manoel chegou no seu carro, modelo Gol/1999, muito bem conservado, numa comprovação de que nem toda casa de ferreiro, o espeto é de pau. Em sua casa, nos aguardavam a mulher e o filho mecânico. O restante da família mora em outras cidades. O jantar já estava posto, bem simples, servido numa grande mesa no fundo do quintal. O papou de alongou até bem tarde.

O pai dele era técnico em eletrônica. “De mão cheia, consertava rádio que não se via igual”, contou orgulhoso. Como fizera com todos os demais filhos homens, “seu” Nivaldo ensinou a profissão a Manoel, que na realidade gostava mesmo era de ver mecânicos consertando carros. E o sonho era alimentado toda vez que ele passava em frente à oficina do Tonho, cujo proprietário fazia dois anos chegara a Xambioá, montando o negócio que se diferenciava dos demais do ramo devido a organização e a fama conquistada, pelo dono, de ser um mecânico sério -, “e que não era careiro como os outros da cidade e das oficinas existentes em São Geraldo, do outro lado do Araguaia”.

Exatamente no dia em que completara 25 anos -, ele nunca esquece a data -, Toninho chegou cedo na Eletrônica de seu Nivaldo, naquele dia viajando para Araguaína.


- Meu pai não está. Em que posso ajudá-lo?

- Só seu pai mesmo. Disseram que somente ele é capaz de consertar um equipamento meu que pifou.

Manoel sentiu ali a oportunidade de fazer amizade com Toninho, abrindo, consequentemente, a chance de aprender os passos iniciais da profissão que tanto sonhava.


- Ele deve voltar dentro de três dias. Se não for tanto urgente, prometo que nem bem ele chegue vou avisá-lo de seu retorno -, mentiu, na tentativa de forçar o cliente a pedir sua ajuda.
A tática deu certo. Toninho parecia apressado em resolver a pane no equipamento até então desconhecido de Manoel, que de inicio imaginava tratar-se de um receptor de rádio. Seria mole pra ele.

Tecnologia alemã

Nos fundo da oficina, três cômodos de madeira transformados em residência ocupavam o pequeno quintal. Sobre a mesa de refeição da cozinha, havia um transreceptor miniaturizado jamais visto pelo técnico.
- Já viu algum equipamento deste?

- Não. Mas isso deve ser um transmissor. Não sei o modelo. Qual o problema?

Fabricada na Alemanha, a pequena engenhoca seria de um primo de Toninho que ali deixara fazia cinco meses com objetivo do dono da oficina vendê-la a algum interessado em Araguaína ou Imperatriz, cidades para onde o mecânico sempre viajava. Toninho dissera que com o tempo aprendera a operar o retransmissor, falando à noite com rádio amadores - muito comum àquela época.

O certo é que Manoel, depois de três horas, colocou o aparelho para funcionar. Festejado pela operação bem sucedida, o preço cobrado pelo conserto foi deixá-lo aprender os ofícios da mecânica. Em quatro meses, os dois se tornaram mais amigos do que patrão e empregado. Seu Nivaldo perdera o filho na eletrônica, agora espécie de sócio de Toninho.

Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, o pequeno povoado de Xambioá já se transformara numa das bases de operação mais importantes das Forças Armadas, com a implantação de acampamentos e sobe e desce de aviões de todo tamanho. A conversa que se ouvia era de que “os fardados” (na verdade nunca chegaram a usar fardas, mas isso é outra história) buscavam “os paulistas”. Os “homens da mata”. Os “subversivos”.

Já se passara quase um ano do novo emprego de Manoel. A amizade consolidada com seu patrão só não permitia a ele acompanhar Toninho em suas estranhas pescarias pelo rio Araguaia.


- Eu nunca entendia aquilo. Sempre disposto a ter amigos em sua volta, na hora em que saía para pescar, Toninho jamais permitia companhia. Um dia perguntei se podia pilotar sua lancha motorizada com um johnson 25hp, raro naquela região, já que eu conhecia todos os canais dos pedrais do Bico do Papagaio, principalmente os mais perigosos em torno da Serra das Andorinhas. Ele não aceitou, dizendo que pescava sozinho, desde criança, e que o hábito lhe dava sorte para pegar bons peixes.

Efervescência militar
Primeiro trimestre do ano de 1974. Numa tarde chuvosa correu informação de ‘batidas’ residenciais a serem realizadas pelos “homens da Agropecuária” (denominação de um dos alojamentos da duas supostas construtoras instaladas ali desde o ano anterior. O outro se chamava “Mineradora”). A ordem era prender quem estivesse com rádio sintonizada numa “estação comunista”.

A repressão militar ocorreu. Dezenas de homens e mulheres foram presos, libertados cinco dias depois com a recomendação de que se tentassem ouvir novamente a estação seriam recambiados para Brasília. A partir desse fato, “a rádio do locutor que falava da guerrilha” era sintonizada clandestinamente, às escondidas em quartos fechados ou no fundo de quintais.

Até o dia da primeira ‘batida’ dos militares nas residências de Xambioá, Manoel jamais se interessara pela “rádio dos comunistas”. Nesse período, eventualmente ele dormia na casa de Toninho quando ambos ficavam até tarde na oficina adiantando serviços. Deitados em redes atadas uma ao lado da outra, vez por outra o patrão perguntava ao empregado o que ele achava dos comentários dando conta de que os militares estavam prendendo e torturando agricultores para que eles denunciassem esconderijos dos “paulistas”. Como não achava nada, Manoel disse que pouco entendia do que estava acontecendo. Estavam nesse nível de conversa quando, de repente, bateram à porta lateral da casa que dava para uma esquina escura. Era Zé Mandi, seu ajudante de mecânico.

- Seu Toninho, o senhor já soube que ‘os home’ espancaram tanto o Gilberto da Baleia, lá na Bacaba (lugarejo a 50 km do então Estado do Goiás sentido Marabá às margens da rodovia Transamazônica) que ele não resistiu, vindo a falecer? Não escapou ninguém. Nem crianças. Todos entraram na taca.
Como se tivesse levado um beliscão, Toninho pulou da rede e, sem perda de tempo, vestiu-se rapidamente, saindo às pressas dizendo que ia pescar. A noite estava iluminada e ele aproveitaria para sair daquele clima de agressão que não lhe deixava bem. Antes de descer a ladeira com seus apetrechos de pescaria, recomendou que Manoel cuidasse de tudo na casa. Até às 6 horas da manhã, estaria de volta.

O relógio marcava pouco mais das 22 horas.

“Desconhecido destino prisioneiros”
A saída brusca do patrão deixou Manoel impaciente. Alguma coisa lhe dizia não ser normal aquelas pescarias extemporâneas. Decidiu ficar atento para descobrir algo mais. E esse “algo mais” apareceu pouco antes de amanhecer, com o retorno de Toninho da pescaria.

Passava das 4 da manhã quando, deitado em sua rede, Manoel ouviu o ruído do motor johnson 25hp se aproximando do porto, ora acelerado, ora sendo desacelecerado – movimento comum em toda operação de aportar barcos.
Do alto da ribanceira, sem o patrão vê-lo protegido pela escuridão da madrugada, o curioso rapaz ficou observando os movimentos do mecânico saindo da lancha com os apetrechos de pesca, dirigindo-se em seguida a uma barraca havia vários anos situada entre os arbustos altos à direita do porto de Xambioá.

Toninho, antes de entrar no casebre, olhava para todos os pontos da beira-rio como para certificar-se de que não estava sendo observado. Demorou uns cinco minutos lá dentro, e saiu apressado subindo ladeira.
Nesse dia, tão logo chegou a noite, Manoel desceu a ribanceira com uma lanterna na mão e pela parte de trás do barraco usado por Toninho quando retornara da pescaria, percebeu que podia acessá-lo tirando duas telhas de brasilit. Foi o que fez, sem ser visto. Dentro do barraco, apenas redes e tarrafas de pesca sobre um tambor de óleo de 200 litros. Mais nada.
Já ia subindo para sair pelo lugar destelhado quando o foco da lanterna indicou uma folha de papel de embrulho de cor cinza. Providencialmente, Manoel colocou-a no bolso da calça e saiu. Já em casa, observou que a folha de papel tinha algo escrito ( a mesma folha de papel até hoje em seu poder, foi mostrada a mim durante a gostosa conversa que mantivemos no jantar do mês passado).

Corroída pelo tempo, mas bem conservada numa caixa de papelão, a folha de papel tem o seguinte texto escrito à mão com uma caneta provavelmente de tinta azul:
“Titica para Tirana. Ativada OP Perseguição a GA. Muitos moradores e camponeses presos. Pop rural assustada perseguição. OP desconhecido destino prisioneiros”.

Essa mesma folha de papel deixada no barraco por esquecimento fora mostrada dois dias depois a Toninho, que tomou um susto ao vê-la nas mãos de Manoel. Foi quando o mecânico revelou ao amigo, sua verdadeira missão em Xambioá: fazer o relato semanal (ou quando um fato novo ocorrido no front justificasse nova arriscada transmissão), via código de morse, para uma estação localizada em Cuba, que imediatamente o repassava a Rádio Tirana, na Albânia.

A partir desse dia, Manoel era um dos raríssimos brasileiros sabedores de que em Xambioá havia alguém transmitindo para a Albânia mensagens sempre num código alfanumérico narrando as barbaridades da Guerrilha do Araguaia. Toninho lhe revelara o segredo com a recomendação de que se alguém ligada ao governo soubesse daquela operação, não sobraria ninguém vivo. O segredo ficou até hoje.

“Me deixa fora disso”

Toninho, que na verdade tinha outro nome, deixou Xambioá tão logo ele enviou mensagem narrando o assassinato da guerrilheira “Dina” e da fuga sem sucesso de dois padres franceses, presos, torturados e mortos na Bacaba no final de outubro de 1974.
Ou seja, do jeito misterioso que chegou, Toninho sumiu de Xambioá. Até hoje Manoel não sabe o seu paradeiro, mas têm certeza de que as forças do SNI não puseram as mãos nele.

Manoel conta que por duas vezes foi levado ao ponto onde o rádio-telegrafista tirava do fundo da terra três potentes transmissores – inclusive o que ele consertara no dia de seu aniversário. Descendo 20 minutos de lancha o Araguaia, numa parte da Serra das Andorinhas acessada através de uma ponta de riacho que nascia do igarapé Xambioazinho, Toninho fizera sua base, protegida por mata fechada. No local, depois da retirada de excessiva quantidade de mato, via-se imensa vala fechada com uma tampa bem protegida de concreto. Lá dentro, o buraco de 1,5 X 1,5 metros, todo revestido de cimento, para proteger os equipamentos das intempéries. Cada transmissor ficava enrolado a imensos plásticos de cor preta.

Manoel não soube responder se as ‘pescarias’ de Toninho rendiam algum peixe. Ele lembra, no entanto, que o rapaz retornava de suas repentinas viagens sempre ostentando, orgulhoso, os pescados do dia.

Demonstrando profundo conhecimento do assunto, Manoel disse que Toninho operava numa freqüência de seu transreceptor FM acima de cento e trinta megahertz, bem distante da faixa usada pelos militares que tentavam localizar o ponto de transmissão de alguma base comunista, sem sucesso.

Um dia, conta Manoel, o ‘mecânico’ lhe mostrou um rádio de tecnologia mais avançada. “O equipamento lhe permitia captar sinais dos aviões militares que sobrevoavam a região em busca dos guerrilheiros. Só tinha um problema. Toninho ouvia o que a tripulação dos aviões comunicava, mas não conseguia obter a resposta das tropas em terra. Se ele tivesse conseguido isso, a história da guerrilha poderia ter sido outra”, acredita, sonhador, Manoel.
Quando lhe convidei a gravar um vídeo contando a participação de Toninho na Guerrilha do Araguaia, Manoel reagiu com dureza.
- Nunca pense nisso. Já sofremos muito aqui em casa por causa dessa guerra, que na verdade não foi uma guerra. Foi uma perseguição implacável de um Exército a um grupo de 60 pessoas. Tem noites que acordo me lembrando dos soldados pelas ruas de Xambioá, e choro. Eu e minha mulher. Me deixa fora disso. Quando falo nisso me sinto um morto-vivo.